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O FUTEBOL BRASILEIRO E SUAS HISTÓRIAS
Cortesia do Caipira Uai
OS DOUTORES DA BOLA
Dr. Eduardo Gonçalves de Andrade - Tostão
Após a vitória do Brasil na Copa da Suécia, em 1958, os torcedores mineiros o carregaram nos ombros pelas ruas de Belo Horizonte, festejando a vitória de nossa seleção. Ele tinha apenas 11 anos de idade, mas para os torcedores aquele menino já simbolizava a seleção brasileira, acostumados que estavam a ver o garoto infernizar as defesas adversárias no jogos realizados no campinho do Conjunto Habitacional IAPI, em Belo Horizonte, onde a família do futuro craque morava. Franzino, era tão pequeno que o apelido tornou-se inevitável: Tostão.
Em 1966, aos 19 anos, já era titular da seleção brasileira e foi um dos poucos a escapar do fiasco na Copa da Inglaterra. Em 1969 foi o artilheiro das Eliminatórias e em 1970 seria um dos principais artífices das vitórias maravilhosas da seleção na Copa do México.
Tostão começou a carreira no América mineiro, time do qual seu pai, Osvaldo, era torcedor doente. Certo dia, jogando contra o América, o Cruzeiro vencia por 1 x 0 e a partida parecia fácil. Porém, no segundo tempo o ainda adolescente Tostão entra e vira o resultado: 2 x 1 para o América. Entusiasmado, o presidente do Cruzeiro decide contratá-lo de qualquer maneira.
Tostão seria o maior craque e o maior ídolo da história do Cruzeiro, tendo sido artilheiro por quatro vezes seguidas do Campeonato Mineiro e comandando o único time brasileiro capaz de derrotar seguidas vezes o poderoso Santos de Pelé dos anos 60.
Tostão era tido como uma espécie de um novo Pelé, com a responsabilidade de suceder o Rei na seleção brasileira, quando uma fatalidade abreviou sua carreira: em um jogo contra o Corinthians, realizado em setembro de 1969, um zagueiro do time paulista, leal porém sem habilidade, resolveu mandar a bola para longe com toda a força de seu chute, mas a bola acertou o rosto de Tostão, causando descolamento da retina do olho esquerdo.
O jogador segue para o Methodist Hospital, de Houston, para ser operado pelo médico brasileiro de renome mundial, Dr. Roberto Abdala Moura.
O processo pós-operatório foi acompanhado por todo o país durante meses, pois o fato causara comoção nacional e não havia a certeza de recuperação do jogador para a Copa que seria realizada alguns meses depois. Um torcedor chegou a oferecer o próprio olho esquerdo, caso o ídolo precisasse: "para ele será mais útil do que para mim", disse. Tostão se recuperaria e voltaria a jogar bem, sendo um dos destaques da Copa de 1970, ao lado de Pelé, Rivelino, Gerson e Cia.
Entretanto, em 1973, jogando pelo Vasco da Gama, time para o qual se transferira na maior transação do futebol brasileiro na época, os problemas com a visão retornaram e ele decidiu abandonar a carreira, com apenas 26 anos. Terminava o jogador. Começava o médico.
Longe do futebol, Tostão mergulhou nos estudos e decidiu ser médico. Para um ex-jogador de grande inteligência, que em vez de jogar cartas ou ouvir sambas preferia ler James Joyce e Hermann Hesse durante as concentrações, não foi difícil passar no vestibular e ele matriculou-se na Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte.
Formado, se dedicara por mais de 20 anos à medicina, afastando-se do futebol durante todo esse tempo e evitando falar no assunto. Não por mágoa, como explica, mas sim por necessidade de dedicação à profissão.
Mos anos 90 o narrador esportivo Luciano do Valle convida Tostão para comentar alguns aspectos dos jogos por ele transmitidos e o ex-jogador, mais uma vez, surpreende, revelando-se o mais arguto comentarista esportivo já surgido entre nós, bem diferente dos papagaios que repetem sem parar chavões e frases de efeito nas noites de domingo na televisão.
Dr. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira - Sócrates
Atleta ele nunca foi, e nem tinha porte físico para isso, mas a fantástica habilidade com a bola nos pés fez com que já no 3º ano do curso de Medicina em Ribeirão Preto (SP) ele passasse a jogar futebol profissionalmente, conciliando a partir de então os estudos e a prática do esporte, o qual exercia magistralmente, tornando-se o artilheiro do Campeonato Paulista de 1976, ainda estudante de medicina.
Durante a semana, estudava. Aos domingos, jogava. Treinos? Só raramente.
Dono de inteligência privilegiada, esse médico nascido em Belém do Pará, criado a partir dos 10 anos de idade no interior de São Paulo, viria a ser um dos maiores ídolos do esporte mais popular do mundo.
Sócrates (o nome foi escolhido pelo pai, após a leitura da República, de Platão) era dono de um dos mais vistosos estilos de jogar futebol já vistos em campo, usando e abusando de sua habilidade para dar passes e fazer gols com o calcanhar.
O estilo aparatoso de Sócrates, a elegância de Falcão e a agilidade de Zico compuseram o fantástico meio-campo da seleção de 1982, que encantou o mundo, mas que por seguidas falhas da defesa perdeu para uma seleção italiana apenas mediana.
Foi o principal ídolo do Corinthians durante o início dos anos 80, sendo até hoje um dos maiores artilheiros da história do clube.
Pela seleção brasileira, Sócrates jogaria ainda a Copa de 1986, no México, numa seleção ainda forte porém já sem o brilho de quatro anos antes. A seleção perderia nos pênaltis para a França. Sócrates era um exímio cobrador de pênaltis e durante todo o tempo que permaneceu no Corinthians, por exemplo, bateu 36 deles, errando apenas 2, em partidas que mesmo assim o time venceu. Na Copa de 86, entretanto, no segundo-tempo do jogo o árbitro marcou um pênalti a favor do Brasil. O jogo estava empatado em 1 x 1 mas Sócrates, que era cobrador oficial da equipe, permitiu que o amigo Zico, a quem sempre admirara profundamente como jogador e que acabara de entrar na partida, cobrasse a penalidade. Zico errou e o jogo foi para prorrogação, que igualmente terminou empatada.
A decisão foi para disputa por pênaltis. Chegou a vez de Sócrates cobrar: o goleiro francês defendeu. Chegava ao fim uma trajetória brilhante, de 63 jogos e de 25 gols marcados com a camisa da seleção.
Agora quem brilha em campo é o cidadão politizado e o médico. Este, por exemplo, propôs tese na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) defendendo a mudança de 11 para 9 jogadores nos times. Por quê? O Doutor explica que, na década de 70 um jogador corria em média quatro quilômetros por partida. Atualmente, corre dez quilômetros, em média. É óbvio que tamanha correria anula qualquer tentativa de criatividade.
Só mesmo um médico, inteligente e sem medo de polêmicas, poderia propor diagnóstico tão avançado para males do futebol feio.
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